Fraternidade na prática das escolas

A sociedade é um espaço múltiplo e complexo, difícil de apreender como realidade, mas é o espaço onde atuamos como indivíduos, onde lidamos com a atuação de outros indivíduos e onde nos co-construímos como humanidade. No entanto, a forma como percebemos a realidade social é muito determinante sobre como coexistimos como humanidade em nossa vida na Terra.


Há pouco mais de um século, Rudolf Steiner fez inúmeras palestras (e escreveu um livro também) sobre o que ele chamou de Trimembração do Organismo Social. Em suma, sua abordagem descreve a vida social trimembrada em um âmbito espiritual/cultural, um âmbito político/jurídico (ou dos direitos) e um âmbito econômico. Uma grande contribuição de Steiner, foi perceber que os anseios humanos pelos ideais expressos na Revolução Francesa, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, são saudáveis quando aplicados cada um a uma determinada esfera da vida social e não saudáveis quando aplicados às outras duas esferas. À vida espiritual/cultural cabe a liberdade; à vida política/jurídica cabe a igualdade; e a fraternidade é saudável quando aplicada à vida econômica.

Mas a ideia da Trimembração Social não deve ser vista como um modelo que precisamos implementar na realidade! Ela é um arquétipo que se expressa na realidade, que podemos perceber por nós mesmos. Quer queiramos ou não, a realidade social é trimembrada. A questão então é percebermos essa trimembração na realidade para agirmos de acordo com suas leis, no sentido de trazer saúde para a vida social.


Somos seres espirituais e estamos em constante desenvolvimento de nossas capacidades (âmbito espiritual/cultural, de desenvolvimento de capacidades). Vivemos num mundo material, onde temos necessidades de consumo para manter nossa sobrevivência física (âmbito econômico, de atendimento de necessidades). E além disso, convivemos com outros indivíduos e, portanto, precisamos regular essa convivência para que ela exista numa certa harmonia (âmbito político/jurídico, de direitos, de regulação e acordos).

É importante percebermos como a vida espiritual/cultural exige a liberdade para favorecer o desenvolvimento de cada indivíduo; como a vida econômica exige a fraternidade para o atendimento das necessidades de todos; e como a vida política/jurídica exige a igualdade para a harmonização de nossa convivência. E percebermos também que esses princípios já atuam na vida social, mas ainda de forma inconsciente. É nosso papel, como humanidade, tomarmos consciência da atuação desses princípios para atuarmos de forma a favorecê-los.

Como indivíduos, ansiamos por liberdade para nos desenvolvermos e expressarmos quem realmente somos, mas se permanecermos voltados somente para nós mesmos, tendemos a querer impor nossas próprias ideias aos outros, o que socialmente leva à massificação, à prevalência de uma única cultura, de um pensamento único.


Ansiamos também por sermos aceitos em nossas diferenças, com direitos iguais na sociedade, mas se permanecermos voltados somente para nós mesmos, tendemos a nos agrupar com outros iguais, pertencentes aos mesmos agrupamentos sociais, formando grupos de poder, o que socialmente leva à discriminação.

Ansiamos ainda por termos nossas necessidades atendidas, para que não falte o pão nosso de cada dia, mas se permanecermos voltados somente para nós mesmos, tendemos a explorar a vontade dos outros para atendermos nossas próprias necessidades, o que socialmente leva à submissão e à miséria.

O social se dá basicamente no encontro de um com o outro, portanto para uma vida social saudável, cada um precisa se voltar para o outro e, em vez de lutar apenas por liberdade para si, buscar se interessar pelas ideias do outro, criando um espaço de liberdade onde cada outro pode se expressar livremente, seguindo seu próprio desenvolvimento, o que socialmente leva à liberdade de cada um no âmbito espiritual/cultural, o que leva à diversidade de expressões e de culturas.

E também, em vez de lutar apenas por ter seus direitos reconhecidos, buscar aceitar o outro como ele é, com suas diferenças, reconhecendo-o como um igual em seus direitos, independente de sua origem, raça, religião, gênero, profissão, orientação política etc, buscando a criação de leis e acordos em que a voz de todos os envolvidos seja levada em consideração em igual medida, o que socialmente leva a uma harmonia na convivência humana.

E ainda, em vez de lutar apenas por atender suas próprias necessidades, buscar se corresponsabilizar pelas necessidades de todos, tomando-as como motivo para sua ação, o que socialmente leva à fraternidade no âmbito da economia, o que leva à sustentabilidade da vida na Terra.

No âmbito espiritual/cultural, o foco deveria ser em criar espaços de liberdade para que cada indivíduo possa se expressar livremente, trazendo seus impulsos espirituais próprios para a vida, contribuindo com seu próprio colorido para uma vida cultural mais rica e diversa. No âmbito político/jurídico, o foco deveria estar na criação de acordos em grupo, com equivalência entre os envolvidos em cada grupo, onde cada voz é levada em consideração, de modo a se criar acordos que levem a uma harmonia na convivência humana. Já no âmbito econômico, o foco deveria estar no atendimento fraterno das necessidades adequadas de sobrevivência de todos, de toda a humanidade e do planeta, com um sentimento de que somos todos habitantes de um mesmo lar, membros de uma mesma família planetária, com diferentes necessidades de sobrevivência.

Agir de acordo com as ideias da trimembração social nos levará a uma vida espiritual/cultural mais rica e diversa, a uma vida política/jurídica mais harmônica e a uma vida econômica mais sustentável. Mas temos duas principais dificuldades nesse caminho: (1) nossa tendência de enxergar a trimembração social como um modelo teórico e não perceber seus princípios intrínsecos na realidade e o que eles exigem de cada um de nós na vida prática; (2) nossa tendência ao egoísmo, de nossa consciência estar muito voltada para nós mesmos e não enxergar verdadeiramente o outro e agir ao seu encontro.

Acredito que essas são as duas principais questões que, de maneira geral, dificultam uma atuação prática baseada nos princípios da trimembração do organismo social. Mas podemos observar alguns exemplos práticos dessa atuação no mundo, como o trabalho das Escolas Waldorf, que buscam uma atuação livre no âmbito espiritual/cultural; o modelo de decisão baseado na Sociocracia, que busca a formação de acordos baseados na equivalência de todos os envolvidos; e no trabalho das CSAs (Comunidades que Sustentam a Agricultura), que buscam a formação de associações entre produtores, comercializadores e consumidores, dentro do princípio da fraternidade.

Podemos observar também que, de maneira geral, socialmente já se tem uma compreensão mais difundida da importância da liberdade no âmbito espiritual/cultural e também da igualdade no âmbito político/jurídico. Mas, com relação à economia, ainda percebemos uma falta grande de aceitação da importância da fraternidade. Nossas relações econômicas, de maneira geral, ainda são muito baseadas na maximização do proveito próprio.

Quando pergunto a um grupo de pessoas o que compreendem por fraternidade, recebo lindas respostas como: “ajuda-mútua”, “irmandade”, “cuidar de todos”, “amor”, “humanidade”, “somos todos um”, “corresponsabilidade”. Mas quando olhamos para as relações econômicas vemos situações muito distantes do que essas lindas palavras representam.


Fica então a pergunta:

Como levar para a prática esse princípio da fraternidade na economia?


Para entrar nesse aspecto, começarei com uma história ilustrativa:


Um sujeito morreu e, ao chegar do outro lado da vida, foi recebido por um anjo que lhe perguntou se gostaria de ir para o céu ou para o inferno. Como poderia escolher, o sujeito pediu para conhecer esses dois lugares, para então poder fazer uma escolha mais consciente. Pediu para conhecer primeiro o inferno e depois o céu.


Então, o anjo o levou para um elevador onde apertou o botão '-5', já que iam para o quinto dos infernos. Era hora do almoço e o sujeito estava com muita fome. Quando o elevador descia, ele começou a sentir um cheiro delicioso de comida. Começou a salivar, desejando chegar logo ao inferno para poder comer dessa comida cheirosa. Chegando lá, viu um grupo de pessoas sentadas em volta de um caldeirão com uma comida que parecia maravilhosa. Mas, para sua surpresa, apesar daquela comida cheirosa, ninguém ali conseguia se alimentar e todos agonizavam de fome. É que cada um tinha uma enorme colher amarrada ao braço. A colher era maior que o braço e estava amarrada de tal modo que impedia a articulação do cotovelo. Desse modo, as pessoas conseguiam pegar a comida no caldeirão com a colher, mas não conseguiam direcioná-la para a boca, deixando-a cair no chão. Assustado, o sujeito pediu para conhecer o céu.


O anjo o levou então de volta ao elevador e foram até a cobertura. Na subida, sentiram o mesmo cheiro delicioso de comida e a fome era ainda maior do que antes. Chegando no céu, ele se deparou com uma cena semelhante à presenciada no inferno. Aquele caldeirão com uma comida cheirosa, com pessoas sentadas em volta. E, para sua surpresa, as pessoas ali também tinham aquela enorme colher amarrada ao braço, impedindo que levassem a comida à própria boca! Mas diferentemente do inferno, ali no céu todos conseguiam se alimentar bem, pois cada um dava comida na boca do outro.

Essa história nos mostra como, com nosso egoísmo, temos criado um verdadeiro inferno na vida econômica, onde, apesar da disponibilidade de alimentos para todos, ainda convivemos com uma situação mundial onde, em 2018, 820 milhões de pessoas não tiveram acesso suficiente a alimentos, segundo o relatório da ONU “O estado de segurança alimentar e da nutrição no mundo”, de 2019.

Mas existem também lindos exemplos de fraternidade, onde a ajuda mútua se mostra em plenitude. Em 1990 e 1991 morei no sul de Minas Gerais, em Mirantão, distrito do município de Bocaina de Minas. Lá, no meio da Serra da Mantiqueira, num vilarejo pobre, onde algumas famílias com mais de 6 membros moravam em pequenas casas com apenas 2 cômodos, vi as pessoas se unirem em mutirão para a construção de um banheiro para uma família e também para a construção de uma nova casa para uma outra família que estava desabrigada. Esses exemplos me ensinaram a importância do trabalho, de como, com o trabalho conjunto, podemos melhorar muito a vida e o bem-estar de muita gente.


Lembro também que, em 1992 e 1993, quando eu atuava como tesoureiro na Escola Waldorf João Guimarães Rosa, em Ribeirão Preto, implantamos um sistema diferente de remuneração, onde levávamos em conta as diferentes necessidades de cada um. Assim, os salários partiam de um valor básico, igual para todos, e tinham um acréscimo diferenciado de acordo com as necessidades de cada um. Naquela época, definimos critérios objetivos de necessidades, como: número de filhos, se pagava aluguel e se era arrimo de família.

Esses exemplos me mostraram que é possível darmos passos conscientes em direção a uma economia mais fraterna. E neste incrível momento histórico que estamos vivendo, com os diversos problemas que enfrentamos como humanidade, por conta da pandemia do Covid-19, podemos perceber uma grande oportunidade de nos mover mais firmemente nesta direção.


Então, como levar o impulso da fraternidade para a economia super competitiva que temos hoje? O caminho não é fácil, muitas vezes nos sentimos paralisados diante da enorme complexidade da vida econômica. A economia parece ter vida própria, atuando como um ser selvagem que precisa ser domesticado, para de fato cumprir sua função de atender as necessidades de sobrevivência de todos os habitantes de nosso amado planeta, com toda a sua biodiversidade.

Não conseguiremos mudar o curso da vida econômica se permanecermos neste estado de paralisia gerado pela complexidade das relações econômicas, que não abarcamos com nossa consciência. Como diz Rudolf Steiner, no livro “Economia e Sociedade”, “Quem quer atuar na vida deve primeiro compreendê-la”.

Para ajudar um pouco com a compreensão de um aspecto complexo da economia, vou discorrer agora sobre o dinheiro, a partir do que apreendi com meus estudos das conferências de Rudolf Steiner reunidas no livro “Economia Viva” e com o curso de Trimembração Social que fiz no Emerson College e no Centre for Social Development, na Inglaterra, em 1996.


Um primeiro aspecto interessante sobre o dinheiro é que, apesar de muitos de nós acharmos que vivemos por conta do dinheiro que temos, o dinheiro em si não é capaz de nos manter vivos. Diante de uma enorme escassez de alimentos, ter muito dinheiro não ajudaria, simplesmente porque não comemos dinheiro! Sobrevivemos por conta dos produtos que consumimos e que foram produzidos por muitas outras pessoas. O dinheiro atua na economia como um facilitador, um meio de troca. Ou seja, o dinheiro não tem valor econômico em si, mas representa um valor econômico que se sustenta pelo fato de confiarmos nesse valor. Em outras palavras, aceito um pedaço de papel onde está escrito “cem reais” em troca de algo que produzo, porque confio que outras pessoas aceitarão esse mesmo papel na troca por outro produto com valor equivalente. Nesse sentido, o dinheiro é um direito econômico, pois de posse dele tenho o direito de comprar algo de valor equivalente.

No já citado livro “Economia Viva”, Rudolf Steiner expõe as duas formas em que surge valor na economia. Surge valor na economia quando aplicamos Trabalho a um produto da Natureza e também quando aplicamos nossa inteligência, nosso Espírito ao Trabalho.

Vou criar um exemplo hipotético para ilustrar isso.


Eu moro num sítio e no meu quintal tem 4 mangueiras que ficam carregadas de mangas grandes no final do ano. Se eu não colher as mangas e deixá-las apodrecer nas mangueiras, elas não têm nenhum valor econômico, pois não entram na circulação econômica. Mas, se eu colho as mangas e as levo no bairro próximo, posso encontrar pessoas que darão valor a essas mangas e que me pagarão algo por isso. Desse modo, aplico meu trabalho de colher e transportar as mangas, e assim crio um valor na circulação econômica.


Imagine que estamos numa época em que ainda não há transporte sobre rodas. Então, se eu carregar as mangas numa grande sacola, digamos que eu consiga carregar 20 mangas de uma só vez. E digamos que eu transporte a sacola com as mangas, caminhando por 30 minutos até chegar no bairro mais próximo para poder trocar minhas mangas por algo de valor equivalente.

Imagine agora que nesse bairro mora uma pessoa que produz sapatos. Mas é uma pessoa inovadora que, ao me ver caminhando, transportando mangas pesadas, pode ter a brilhante ideia de inventar uma carroça que facilitaria minha vida e de todas as outras pessoas que precisam carregar suas mercadorias. Mas para ser capaz de fabricar a carroça, essa pessoa teria que ficar 2 meses sem poder se dedicar a produção de sapatos. Como então essa pessoa sobreviveria nesse período? Para isso, é necessário que outras pessoas forneçam seus produtos para ela, confiando que após 2 meses ela poderá pagar de volta. E assim, após 2 meses a carroça fica pronta.

Agora, com o uso da carroça, eu consigo transportar muito mais mangas em menos tempo. Digamos que minha produtividade no transporte das mangas aumentou em 20 vezes, ou seja, agora em 30 minutos eu consigo transportar 400 mangas! Com isso eu começo a gerar excedentes, pois eu já conseguia viver bem com minha capacidade produtiva anterior. E, com os excedentes, eu posso pagar pelo uso da carroça e ainda me sobra. A pessoa que produziu a carroça recebe pelo seu uso e assim consegue pagar de volta tudo que recebeu pelo tempo em que estava ocupada na fabricação da carroça.


Essa inovação (invenção e uso da carroça) faz com que muitas pessoas tenham um aumento substancial de produtividade, gerando excedentes e aumentando o nível de vida, pois agora têm mais produtos para trocar no mercado.

Imagine então, que isso faz despertar na comunidade o interesse pela inovação, pois percebem que ao aplicar a inteligência (o espírito) ao trabalho, criam ainda mais valor econômico!

Com isso, resolvem incentivar a inovação! Assim, digamos que uma outra pessoa da comunidade, que produz cadeiras, mas que tem um grande dom de ensinar, resolve se dedicar ao ensino de crianças e jovens para que eles possam desenvolver novas capacidades e serem mais capazes de inovar. Essa pessoa se retira então do processo de produção de bens econômicos para se tornar professora e a comunidade vê nisso uma grande vantagem, mesmo do ponto de vista puramente econômico!


Mas como essa pessoa irá se sustentar se não irá mais produzir cadeiras para trocar por outras mercadorias? Será necessário então que os outros doem um tanto de seus produtos para que a nova professora tenha condições de se sustentar economicamente para então poder se dedicar inteiramente ao ensino. Com isso, a professora é liberada do trabalho no processo econômico.


Essa história ilustra bem as duas formas de criação de valor na economia e ainda nos mostra com clareza as 3 qualidades do dinheiro. O dinheiro pode ser usado para troca de bens, para empréstimo e para doação.


Quando usamos dinheiro para comprar uma mercadoria, entregamos o dinheiro e recebemos em troca uma mercadoria palpável (dinheiro de troca ou de compra). Quando usamos o dinheiro para emprestar para alguém, não recebemos nada em troca, apenas a promessa do retorno do dinheiro em um determinado prazo, o que envolve risco e exige confiança (dinheiro de empréstimo ou investimento). E quando usamos o dinheiro para doar para alguém ou alguma instituição, não recebemos nada em troca (dinheiro de doação).


Acontece que quando doamos dinheiro para uma instituição da vida cultural, estamos possibilitando que esta instituição possa existir e assim a libertamos da necessidade de produção econômica. É um dinheiro que pode trazer um enorme retorno, até mesmo para a vida econômica, no futuro, uma vez que pode propiciar alguma inovação que aumente o nível de vida de todos (atendimento de necessidades).

Desse modo, podemos dizer que, de certa maneira, o dinheiro nasce na troca, cresce no empréstimo e morre na doação. E que o fluxo saudável do dinheiro tem a ver com isso, que o grande excedente gerado pelo enorme ganho de produtividade na economia hoje, deveria fluir como doação para a esfera cultural da vida social, como as escolas por exemplo.


Poderemos abordar agora essa questão de como levar esse impulso da fraternidade econômica para a prática nas escolas.

Com relação a isso, uma primeira coisa importante a observar é que o valor das mensalidades que pagamos para as escolas é dinheiro de doação. A educação não é uma mercadoria. Damos dinheiro para que a escola possa existir e assim contribuir para o desenvolvimento de tantas crianças e jovens e não apenas para nossos próprios filhos.

O importante aqui é nos sentirmos corresponsáveis pela sobrevivência da escola como um todo e das famílias da comunidade escolar (mães, pais, professoras, professores, colaboradoras e colaboradores). Precisamos sentar juntos e olhar para as necessidades e possibilidades de cada um e do Todo.

Na situação atual de pandemia, podemos estar muito conectados com nossas próprias necessidades e é legítimo que seja assim, precisamos sobreviver. Mas se permanecemos conectados apenas às próprias necessidades, nossa postura será contrária a fraternidade. A “magia” acontece apenas quando trazemos nossas necessidades para o grupo e nos conectamos com as necessidades de todos os outros com empatia. Assim, pode surgir em nós o impulso para a ajuda mútua!


O que normalmente nos impede nesse passo para a fraternidade é nosso medo de não sobreviver, gerado pela nossa cultura baseada no paradigma da escassez, que nos leva a acumular cada vez mais, com medo de um dia algo nos faltar. Para irmos na direção da fraternidade, precisamos mudar o padrão, migrar para o paradigma da suficiência, de que não precisamos acumular tanto e que o que temos talvez já seja o suficiente para viver bem. Para isso, precisamos superar o medo. E o que pode nos ajudar a superar o medo é ter a percepção de que fazemos parte de algo maior, de que podemos sentar juntos com toda a comunidade e nos ajudar mutuamente, buscando soluções criativas conjuntas para o atendimento de necessidades de todos.

Algumas escolas têm criado práticas interessantes nesse sentido. Quero destacar uma prática relevante que tenho tido o prazer de ajudar a realizar em algumas escolas, que são as rodas fraternas.


No exercício das rodas fraternas, as famílias se reunem e conversamos sobre a importância do impulso da fraternidade a partir de alguns conceitos básicos, e todos compartilham sua situação financeira atual. A partir daí, fazemos uma rodada onde cada um coloca o quanto necessita de ajuda financeira no momento. Ao final dessa rodada, temos um montante total de necessidades do grupo. Agora, saímos do olhar para nossa própria necessidade individual e nos voltamos para a necessidade do todo, ajudando a despertar o impulso para a ajuda mútua. E então fazemos rodadas de ajuda, onde cada um coloca o quanto pode contribuir para contemplar a necessidade total do grupo. Fazemos isso usando o exercício do ponto de equilíbrio, onde cada um é convidado a encontrar em si o seu próprio ponto de equilíbrio financeiro, que o ajuda a definir o quanto pode disponibilizar para doar ao grupo.


Em todas as rodas fraternas que participei, pude constatar a alegre surpresa de todos, de que realmente funciona. É muito emocionante ver como somos capazes de acionar o impulso fraterno em nós, quando nos conectamos com os outros em comunidade.


Quero finalizar com mais uma história interessante, a história da tartaruga:


Uma tartaruga bem grande põe 100 ovos, mas vem um animal predador e come 90 ovos da tartaruga! Podemos nos lamentar e ficar com pena da pobre tartaruga, que pôs 100 ovos, mas terá apenas 10 filhotes. E podemos concluir que na natureza é assim: vale a lei do mais forte!


Mas podemos ter um olhar bem diferente para essa mesma realidade: de que a tartaruga só queria ter 10 tartaruguinhas. Ela pôs 100 ovos para alimentar outros seres com os 90 ovos excedentes. E aí, nossa conclusão será bem diferente: na natureza os seres se dão em abundância, num verdadeiro espírito fraterno de ajuda mútua, todos contribuindo para a sobrevivência de cada um!


Finalizo desejando de coração que nós, como humanidade, possamos aproveitar essa oportunidade que se abre de revermos nossa forma de atuação no mundo, para resgatarmos nossa humanidade e nossa corresponsabilidade pela vida no nosso querido Planeta Terra! A hora é agora!